Pela primeira vez é observada uma ocultação estelar por um satélite irregular

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Satélite Febe, observado pela sonda Cassini. Créditos da imagem: NASA/JPL/Space Science Institute


Os observadores japoneses Tsutomu Hayamizu (Sendai Space Hall; JOIN – Japan Occultation Information Network), Katsumasa Hosoi (Hamanowa-observatory; JOIN) e Owada Minoru (JOIN) observaram pela primeira vez na história uma ocultação estelar causada por um satélite irregular. Trata-se do satélite Febe, de Saturno (Phoebe em inglês). O evento, ocorrido em 06 de Julho de 2017, foi previsto no trabalho de Doutorado de Altair Ramos Gomes Júnior do Observatório do Valongo/UFRJ, sob a supervisão do Dr. Marcelo Assafin (OV/UFRJ, LineA, DES), com a colaboração de pesquisadores, posdocs e estudantes do LineA.


O trabalho de predição foi publicado em 2016 no periódico especializado Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, sob o título de “Novas órbitas de satélites irregulares projetadas para previsão de ocultações estelares até 2020”, com base em milhares de novas observações feitas no Observatório do Pico dos Dias (LNA/MCTI, Brasil), ESO (Chile) e Observatoire de Haute-Provence (França). Com o suporte do LineA, que hospeda páginas com previsões para ocultações estelares, o Dr. Felipe Braga Ribas alimenta e atualiza essas previsões específicas na rede de observadores “Occult”, comandada pelo astrônomo australiano Dave Herald. A rede emitiu o alerta desse evento, seguido pelos observadores japoneses. Esta é a primeira vez na história que uma ocultação estelar por um satélite irregular é observada de forma bem sucedida.


A coloração escura de Febe inicialmente levou os cientistas a suporem que fosse um corpo capturado do Cinturão Principal de Asteroides, que fica entre Marte e Júpiter, já que se assemelhava à classe comum de asteroides carbonados escuros. Estes são quimicamente muito primitivos, com compostos de sólidos originais que se condensaram fora da nebulosa solar com pouca modificação desde então. Porém, as imagens da Cassini indicam que as crateras de Febe mostram uma variação considerável de brilho, o que indica a presença de grandes quantidades de gelo abaixo de uma cobertura relativamente fina de depósitos de superfície escura, com uma espessura de 300 a 500 metros. Além disso, quantidades de dióxido de carbono foram detetadas na superfície, uma descoberta que nunca foi verificada para nenhum asteroide. Estima-se que Febe seja cerca de 50% de rocha, em oposição aos 35% ou mais, que tipifica as luas interiores de Saturno.


Por estas razões, os cientistas estão aos poucos traçando um novo cenário para a sua origem, no qual Febe é, na verdade, um Centauro capturado, um dos vários planetoides gelados associados ao Cinturão de Kuiper, que orbitam o Sol entre Júpiter e Netuno, e além. Com a ocultação estelar observada, poderemos inferir o tamanho e forma de Febe com precisão quilométrica, comparável as observações da Cassini, permitindo assim checar de maneira independente, e com grande precisão, alguns parâmetros físicos atualmente aceitos para o satélite, contribuindo para o estudo do novo cenário para a origem de Febe.